Fogão “smart” assa bolo sozinho

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A notícia do dia: “Fogão ‘smart’ assa bolo sozinho e custa R$ 4,599,00. Os usuários podem conectar o seu produto ao smartphone e acessar um aplicativo com 50 receitas.”

Se você precisa de um forno que assa bolo sozinho, aposto que você é do tipo que compra bolo na padaria. Portanto, não vale a pena gastar seu dinheiro neste fogão.

E se você acha o máximo um aplicativo baixado no seu fogão para fazer um bolo, por que você não esquece o fogão e use esse dinheiro para comprar um super computador ou um tablet com tela de alta resolução? As fotos de bolo ficam ótimas quando visualizadas nessas telas.

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O link para a notícia está aqui: http://blogs.estadao.com.br/link/tecnologia-smart-invade-linha-branca/
E o link para a receita do bolo da foto, um fraisier, que é uma torta francesa clássica de morangos e creme, que fiz para minha mãe no Dia das Mães, está aqui: http://www.bbc.co.uk/food/recipes/fraisier_cake_75507
Fuja dos bolos de padaria, que são feitos de misturas pré-prontas. Em SP, há lugares que fazem excelentes bolos de verdade. Se você quiser se divertir e aprender a fazer bolos de verdade, fale com a minha amiga Dadivosa, que pode ir até a sua casa e te ajudar: http://www.dadivosa.org/

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Almoço no El Celler de Can Roca

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maio 4, 2013 · 2:21 pm

A caixa mágica

Ao final do jantar, na hora do café, o garçom se aproxima com uma caixa de madeira escura e pesada, de uns 40×40 cm. Antes de abrir, avisa que é a “caixa mágica”. Suspense… Mostra o interior, onde se vêem apenas nibs de cacau. Ele fecha a caixa, chacoalha, chacoalha, abre novamente e – incrível!!! – de dentro sai a. ( ) um coelho b. ( ) uma arara azul c. (X) dois macarons de chocolate, materializados instantaneamente a partir dos nibs. É mágico!

Só que não é. E tampouco surpreendente: é constrangedor. Eu me sinto infantilizado, constrangido a sorrir, fazer uma carinha de surpresa e esboçar um débil “Oh!”, solidário com o cidadão que ganha a vida honestamente pagando esse mico. Não é o único mico da noite. Observo que a mesma piada ensaiada contendo um trocadilho com as palavras bruma (névoa) e broma (piada) é repetida de mesa em mesa, ao servir um prato envolto em fumaça de nitrogênio.

(bocejo)

Estou no Quique Dacosta, em Dénia, Espanha, um restaurante que leva três estrelas Michelin. A caixa mágica encerra um jantar de aproximadamente quarenta pratos. Do menu, guardo uma lembrança de que o chef maneja bem sabores cítricos. Que o maitre, Didier, é um dos mais hospitaleiros e espirituosos que já encontrei. O resto, é uma bruma.

Também pouco consigo lembrar do menu do El Celler de Can Roca, um dos restaurantes mais lindos em que já estive (o número 2 no ranking 50 Best em 2012). O serviço é impecável, embora eu prefira o tom mais informal do Quique Dacosta. A harmonização de vinhos é incrível. O apuro técnico no tratamento de texturas e temperaturas, impressionante. Aqui não há piadas nem magia. Mas há preocupação excessiva com o suporte. Após servir a entrada (duas azeitonas recheadas com anchova) em um bonsai de oliveira que é deixado sobre a mesa, a casa entrega cada item do menu em um suporte diferente. Me surpreende mesmo o salmonete (delicioso) que chega num prosaico prato branco de louça.

Desisto de ir ao ao Arzak, já que assistira à apresentação de Elena Arzak no Madrid Fusión e me parecera evidente o desequilíbrio entre o investimento na comida e o investimento no espetáculo.

Encontrei a magia que buscava no Asador Etxebarri (para referência, é o número 31 no 50 Best). Terminei a refeição pensando em voltar no dia seguinte. Lembrei de amigos que gostaria que estivessem ali comigo. Quinze dias depois, passando próximo a Atxondo, quase cancelei um compromisso para almoçar ali novamente. Não há atestado melhor de prazer gastronômico do que essa sensação. Além disso, lembro com precisão do sabor de cada prato servido. Mussarela de búfala feita no dia, manteiga de leite de cabra. Tartare de chorizo fresco, angulas, mini-polvos. Chuleta. Sem excessos, sem magia. Só fogo que transforma a madeira em brasa e técnica para saber o ponto perfeito de cada produto.

Não comi mal no Quique e no El Celler de Can Roca. Tenho certeza que um grupo de amigos pode divertir-se bastante em qualquer uma das casas. Só acho exagero quando este modelo passa a ser supervalorizado e, de referência, passa a ser uma camisa de força. Eu diria que há um excesso de circo (do soleil) nesse modelo. Eu, pessoalmente, prefiro um espetáculo com voz e violão (faca e fogão).

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Bairro

No alto-falante, uma sequência de Cindy Lauper, Sade e U2. Depois Simply Red, mas não se ouve bem porque o lugar já está lotado e o único garçom se desdobra para atender a todos.

Pelo som, parece uma discoteca dos anos 80, mas é apenas um bar, Taberna de Moncloa às dez da manhã do sábado, as pessoas chegam para tomar café. Desisti de passar o fim de semana em Barcelona e declinei um convite para ir a Toledo, porque já começo a ter dificuldade para processar palácios, castelos e monastérios. Preciso de calma de bairro, de comerciantes varrendo a porta da loja e limpando vitrinas, pessoas com carrinhos indo às compras, sou capaz até de sorrir para gente passeando com cães.

 O garçom dispara pedidos para a cozinha –  “trés pulgas de tortilla y una tostada!”, “una tostada con tomate y una pulga de ensalada de cranguejo!”, tira cafés, responde aos cumprimentos e faz brincadeiras com os clientes mais conhecidos. Atende um fornecedor que chega com caixas e caixas de batatas e ovos, assina o pedido, volta ao balcão e me serve um café por engano – o cliente ao lado também usava chapéu. Coloca a louça na máquina.

 Eu leio, ou quase leio, e observo o vaivém de copos no balcão. Café com leite para alguns, cerveja para dois tempraneros que pedem sanduíche de caranguejo, Coca-Cola para uma turma de estudantes que comem tortillas. A trilha sonora me ajuda a colocar os pensamentos em ordem, Queen, faz parte do meu bairro mental,  são ruas conhecidas em que não preciso de mapa ou GPS, não há monumentos nem ângulos perfeitos para fotografia, apenas as mesmas ruas que cruzam sem fim as mesmas ruas.

Ao sair me despeço do garçom pelo nome, gracias Luis, hasta luego, venga, de nada. Descendo a rua encontro a livraria Altaïr, especializada em literatura de viagem, sou engolido pela estantes com guias de todo o mundo. A cidade é uma armadilha.

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O Santo Graal e os bolinhos da Rosario

A Catedral de Valência afirma ter o Santo Graal. O mais perto que cheguei do cálice, entretanto, foram os bolinhos da Rosário. Acontece que a descrição que existe no folheto distribuído na entrada da catedral simplesmente não batia com o que eu via.

Diz a descrição: à esquerda, as correntes do porto de Marselha trazidas quando Afonso, o Magnânimo, conquistou a cidade em 1453. Eu vejo paredes, abóbadas, afrescos e não vejo as correntes. À direita, a capela com o Santo Graal. Eu vejo paredes, abóbadas, afrescos, braços de santos mumificados, e nada do Santo Graal.

Rodei todas as capelas, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, até desistir. Saí frustrado, mas acabei encontrando algo muito mais interessante na Horchateria El Siglo, uma casa fundada em 1.836, que serve horchatas, fartóns e buñuelos. Vamos direto aos buñuelos da Rosario, com quem eu puxei conversa mas foi difícil arrancar a informação que eu queria: há quantos anos, precisamente, fazia bolinhos ali naquela casa?

 A pergunta tinha um sentido. Eu fiquei fascinado com a técnica precisa que ela usava para moldar os bolinhos. Há quanto tempo estava ali para conseguir em três segundos retirar massa com a mão esquerda, transferir para a direita e, utilizando os dedos médio e indicador moldar uma rosquinha e transferir para a gordura (pense no sentido da palavra prestidigitação). Não entendeu? Veja aqui o vídeo dos buñuelos sendo moldados. Não entendeu? Volte e leia o cabeçalho do meu blog, retirado do livro “Calor”, de Bill Buford. Ou o texto em que falo das mãos de minha mãe moldando esfihas, e meu pai pintando carroçarias de caminhão.

 (Ficaria ali mais tempo, mas tive que evitar o fraternal divórcio do amigo paciente que não entendeu porque tanta emoção apenas com uma senhora fritando bolinhos).

 Os buñuelos são uma tradição da cidade, principalmente durante as Fallas, uma festa que acontece em março. Fora dessa época, é preciso procurar casas especializadas. São feitos a base de farinha e fermento. Os da Rosário, fofos, dourados, sequinhos, com um pouco de açúcar por cima e perfeitos para acompanhar um café. Outros alimentos típicos de Valência são os fartóns, que não experimentei, e que se comem molhando na horchata. A horchata de chufas é uma bebida feita a partir um tubérculo seco. Triturado, misturado com água e açúcar, vira uma bebida de aspecto leitoso, sabor suave de castanha, refrescante, e ao que parece, muito nutritivo.

Rosario começa às nove da manhã, faz uma pausa para o almoço e retoma o seu posto até à noite. Trabalha tranquila, fazendo sua mágica de massa, na contramão da modernidade, espiando os turistas, achando uma discreta graça na gente que passa, que vê passar “há trinta ou quarenta anos”, como revela após a minha insistente pergunta. Diz que eu deveria entrevistar o patrón, que está logo ali atrás. E abre finalmente um sorriso quando eu digo que não me interessa o patrón que dá as ordens, mas ela que faz os bolinhos. Assim como acabo me lembrando que o Santo Graal é a busca, não o cálice.

Serviço

Horchateria del Siglo

Plaza de Santa Catalina, 11, Valencia

 Santo Graal

Descobri, mais tarde, que a capela em que fica o cálice estava fechada,  e reabriria no dia seguinte após a missa. Por isso eu não a encontrei de jeito nenhum. A taça está ali desde 1.424.

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Rosario e sua companheira

 

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Horchata fresca

 

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Café com buñuelos

 

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A maçã do Manuel Bandeira

ImageMeu fogão tem duas bocas. Meu armário, uma panela e uma frigideira. E a única faca da cozinha é a minha pequena Opinel com uma lâmina de sete centímetros e meio. De modos que desde cheguei aqui, há três semanas, a única coisa quente que me animei a fazer foi Cup Noodles (há momentos em que se comeria plástico, se plástico tivesse umami).

 Hoje, voltando do trabalho e querendo sossego, passei no mercado, comprei um potinho de tomate ralado, daqueles que na Espanha se passa no pão. Na geladeira, tinha raviólis (comprados quando mesmo?), um pedaço de queijo de cabra, manteiga, um pote de geleia de pêssego, um pouco de suco de maçã e uma maçã, que pelo seio murcho, já se via estar na melhor idade.

Salguei a água (por que só hoje tive a ideia de já pegar a água quente na torneira, para ferver mais rápido?), refoguei o tomate na frigideira e abri o pacote de raviólis, para descobrir que estavam verdes, embora eu tivesse certeza que não havia espinafre quando comprei…

Sem outra alternativa, encontrei um pedaço de pão seco que comi com o tomate ralado e o queijo. Vamos chamar de bruscheta descontruída com releitura de gazpacho. Para ser alta gastronomia internacional, só faltava finalizar com uns brotos e servir numa pedra.

De sobremesa, restava a maçã, que fritei na manteiga e reservei. Reduzi o suco com a geleia de pêssego, e no final acrescentei geleia de pimenta sobre o queijo de cabra (eu sei, não mencionei a geleia de pimenta, mas é que tecnicamente não estava na despensa, mas na estante, junto com os brindes distribuídos no Madrid Fusión).

E assim dei um fim digno para a maçã, que quedava ali tão simples ao lado do talher em um pobre quarto de hotel.

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Comer a Espanha de montadito em montadito

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Depois da primeira semana de trabalho em Madri, tenho um fim de semana inteiro para passear (museo parque café igreja calle). O fuso interno, que rege o afeto e os mínimos hábitos, lembra que é domingo e exige que, antes de sair de casa, eu faça a feira.

Abastecido de laranjas valencianas e bananas com alta pegada ecológica, começo o dia na Chocolatería San Gínes, fundada em 1894. Churros, chocolate e aquela sensação flutuante de morador temporário: nem turista nem residente, nem mudo nem fluente, com saudades e presente (hay wi-fi en la cafeteria, caballero?).

Eu chegara à Espanha pela Extremadura, em sete de janeiro, o feriado de Dia de Reis. Dirigira pela névoa desde as sete da manhã, contornando as serras das Estrela e da Gardunha, em Portugal, conhecidas, respectivamente, pelos queijos e cerejas.

Às 11:00, com fome, parei em Ciudad Rodrigo, uma cidade que conserva dois quilômetros de muralhas do século XII, castelo, catedral, ruína… o pacote cidade-histórica medieval completo, que, no meu caso, veio com bônus. No momento exato em que atravesso a porta da cidade por uma silenciosa rua de pedra, surgem tambores, devotos, uma banda e um santo que seguem para a catedral. Ainda que eu não seja de santos e procissões, é uma cena bonita e ajustada ao cenário.

Dirijo-me à a Playa Mayor, onde encontro rapidamente o que procuro: uma casa de jamón. Descubro que o embutido regional é o farinato, feito à base de carne de porco, miolo de pão, alho e anis. Peço um montadito, dois montaditos, três montaditos, uma taça de Rioja (porque quem precisa de água aqui?) e é assim que começo a comer a Espanha.

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