Comer Belém de colherinha

Acordar às seis para chegar ao aeroporto às sete para pegar um vôo às oito que, na verdade, só vai sair às nove. Em viagem de trabalho você aprende duas ou três coisas sobre a cidade com o taxista no caminho do aeroporto ao hotel, espia a vista pela janela (quando dá a sorte de pegar um quarto num andar alto) e fica o restante do tempo trancado em uma sala trabalhando. A arquitetura dos hotéis é medieval: as salas de eventos ficam no subsolo, uma espécie de masmorra moderna, semi-iluminada, onde você fica acorrentado a um powerpoint e de tempos em tempos carcereiros de gravata borboleta trazem um café preparado horas atrás e petit-fours de origem duvidosa.

A sorte é que podem te impedir de conhecer a cidade, mas de comer ninguém impede. E eu tinha dois dias inteiros para comer Belém!

Chegamos bem na hora do almoço. Comida de hotel é sempre meio burocrática, mas deu para montar um “menu degustation” local: feijoada com maniçoba, arroz paraense, pato no tucupi e moqueca de filhote. De sobremesa, bolo podre, creme de cupuaçu e bolo podre de novo, porque era perfeito para acompanhar o café. Esse bolo é feito de coco e tapioca.

Seis horas e e dois powerpoints depois, saímos para jantar. O Marcelo já tinha me falado do Manjar das Garças, um restaurante à beira do rio Manguá, dentro de um parque antes de acesso restrito à marinha.

Conseguimos um lugar na varanda, com silêncio e brisa do rio de acompanhamento, e pedimos o menu confiance – seis pratos inesquecíveis, com ingredientes locais, montados pelo Alexandre Righetti, chef paulista que comanda o restaurante. Não preciso dizer que eu comi devagar, não deixei uma migalha no prato e ainda devorei uma sobremesa que o Marcelo não gostou. Afinal, quando é que eu teria a chance de voltar àquele lugar?

No dia seguinte, muito trabalho, pouco almoço, mas a missão cumprida exigia uma comemoração. E alguém dá a idéia: por que não vamos ao Manjar das Garças. Quando a seqüência de pratos começou a desfilar na mesa, comecei a duvidar do ditado que diz que um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar.

Lá estavam o mil-folhas de salmão com espuma de alho, o filhote grelhado com cogumelos, o granité de jambu com limão e o melhor talharim que já comi na vida. O granité é uma invenção do chef, que combina jambu (a erva paraense que anestesia a língua) com suco de limão, para limpar o paladar entre a seqüência de carnes branca e a de carnes vermelhas. O talharim eu não resisti e perguntei o segredo: a massa é aberta, cortada e cozida na hora, o que confere uma textura com uma maciez inigualável.

O vôo só partia às 02:30 da manhã, e no aeroporto ainda foi possível experimentar alguns sorvetes de frutas locais: murici, bacuri e claro, cupuaçu, além de comprar bombons de castanha.

Na bagagem, ainda trouxe um pote de sorvete de tapioca, que estou comendo de colherinha para não acabar logo.

6 comentários sobre “Comer Belém de colherinha

  1. Adorei esse “travel eating” de Belém. Ainda mais porque depois de todo o banquete ainda sobrou tempo para um sorvete de cupuaçu no aeroporto.

    Abraço,
    Gabi

  2. Muito bom! A sorte é que acabei de comer um sorvete de doce-de-leite dessas gelaterias moderninhas. Do contrário, ficaria com água na boca por comer um desses sorvetes de Belém…

  3. Cara, você é bom mesmo em dar palavras aos sabores! Todo mundo que for a Belém deve experimentar este menu confiance e levar o texto para degustar junto com pratos.

  4. E a fruta regional é muruci.🙂

    Adorei o post e que bom que veio e se interessou em “comer Belém”. Com certeza, a culinária é o nosso carro chefe.. para os de ‘mente aberta’, porque não é fácil encarar uma maniçoba, pra quem não conhece. Mas temos uma culinária muito própria e rica, assim como uma natureza bem diferente e amazônida.

    Pois volte sempre.. e quem sabe saborear os triviais como um vatapá (que é diferente do baiano), uma caldeirada ou isca de filhote, um camarão salgado ou ao bafo, ou um tacacá numa tarde quente, como sempre?

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