Chacoalhando lulas

Nunca me dei bem com peixes. Não os nascidos em fevereiro —  peixe nascido e pescado em qualquer época do ano me deixa imobilizado na cozinha. Começa com a dificuldade para comprar. Qualquer livro de dicas culinárias dirá que os olhos devem estar brilhantes. Aí você chega na banca e todos estão brilhando. Como saber quem está brilhando mais? Você olha para o peixe, e o peixe, nada.

Depois, na cozinha, aquele cheiro que deixa dúvidas e deixa rastros. Será que estava fresco mesmo? E o teflon que nunca é suficiente para dourar o peixe por igual, como peixe de comercial do McDonalds.

Por conta disso, nunca me arrisco além de um bacalhau. Afinal, esse você não precisa ver os olhos para saber se está bom. Aliás, você sequer se preocupa com a cabeça dele, que pelo que consta, ninguém nunca viu. Também faço alguns fritadinhos básicos com atum e saint-pierre, mas nada mais.

Como um bom aquariano, eu até deveria me dar melhor com  eles. Mas acho que vou precisar de uma aulinhas. Talvez uns 15 dias em Tóquio. Enquanto isso, só faço peixe quando a receita parece infalível.

Como a receita do livro novo do Alex Atalla, “Escoffianas Brasileiras”. Faz tempo que eu não lia um livro com tanta técnica e ingredientes desconhecidos. Tive que ler com o Google ao lado.

Mas a receita de lula era imbatível, praticamente impossível de errar: você pega uma quantidade de lulas, coloca água, sal grosso, gelo e chacoalha. Por 10 minutos. Depois troca a água, acrescenta mais gelo e chacoalha. Por mais 10 a 15 minutos.

Eu quase coloquei um samba como trilha sonora.  Aos cincos minutos de preparo, já não sabia se era eu que chacoalhava a lula ou se era ela que me chacoalhava. Estava me sentido a morena de Angola com chocalho na canela.

A promessa da receita é que as lulas ficarão crocantes por fora e cozidas por dentro. As minhas continuaram mal-cheirosas, molengas por fora e borrachudas por dentro.

Será que não estavam brilhantes o suficiente quando comprei? Será que cortei anéis grossos demais? Aliás, a receita pede para acrescentar as cabeças das lulas. Eu comprei lulas limpas, sem cabeça. Será que existe nas cabeças um ingrediente mágico indutor da cocção das lulas? Será que chacoalhei muito pouco?

Paro por aqui porque meuss braços dóem. Deixo a receita para quem quiser se aventurar. Eu fico com o bacalhau, que mesmo sem cabeça, sempre fica bom.

Lulas cozidas a frio

Ingredientes

1 kg de lulas de tamanho médio

1 balde de um litro com tampa

100 gr de sal grosso

150 gr de gelo

150 ml de água

Preparo

Limpe as lulas. Separe as cabeças e reserve. No balde, coloque o sal, o gelo, a água e as cabeças de lula. Sacuda o balde de forma irregular por aproximadamente 10 minutos. Troque a água, para diminuir a quantidade de sal. Se necessário, acrescente a mesma quantidade de gelo. Sacuda por mais 10 ou 15 minutos ou até criar uma espuma densa. Coe. Essa operação deixa as lulas cozidas (pela ação do sal) e crocantes ao mesmo tempo.

2 comentários sobre “Chacoalhando lulas

  1. Sandro, muito divertido. Aproveitei para ler uns posts antigos e adorei o do lanche da TAM também.
    Vai experimentando as receitas do Alex, para não fazer feio na confraria.

  2. As aparências enganam… parece fácil, mas… Tenho certeza que na segunda vai dar certo. Qualquer dia desses eu tento essa!

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