Aos 37

Imagine uma estrada em meio à serra. Plátanos e araucárias acompanham curvas estreitas e vagarosas.

Imagine uma pequena ponte de madeira, uma vila com casas de pedra em semicírculo, uma fonte no meio.

Imagine um jardim de hortênsias azuis e ao fundo um galpão de tijolos avermelhados. De dentro do galpão, pela porta envidraçada, você vê as colinas onde cai uma chuva tão mansa que parece névoa suspensa no ar.  E o cheiro picado de grama e chuva e frio é substituído pelo aroma penetrante e adocicado de alho, noz moscada e creme de leite.

Imagine, por fim, que toca uma trilha sonora baixinha, romântica e perfeita. E que você está acompanhado de um grande amor.

Era mais ou menos assim que eu queria comemorar meu aniversário na semana passada. Ou seja, acompanhado da Ângela e da Lívia, e de uma refeição inesquecível.

Mas eu vinha de uma semana de comida mais ou menos. Comida mais ou menos é aquela comida sem inspiração que você é obrigado a comer quase todo dia quando trabalha. Ou comida pretensiosa, que gostaria de ser fina não passa da boa intenção (conhecem o velho ditado: “De boas intenções, a seção de congelados está cheia”).

Eu almoçara no Ça Va com a Mônica Tutiya, celebrando seus novos rumos profissionais. Mas a comida do Ça Va, bistrô acolhedor que fica próximo à Avenida Paulista, é bem mais ou menos. Se quiser ir, leve boa companhia, peça vinho e esqueça a comida.

Na sexta-feira, dia do meu aniversário, tive um almoço de trabalho com a Gabriela Romeu, repórter do caderno infantil da Folha de São Paulo, Renata Bortoleto, que cuida do Brincando na Rede, e a Regiane, nossa assessora de imprensa. O almoço foi bom e o papo foi ótimo. Mas o bacalhau do “Gato que Ri” era apenas mais ou menos. Apresentação sem graça, arroz derramado sobre o prato sem cuidado. E as meninas todas de regime que me deixaram constrangido de pedir um pudinzinho na sobremesa.

Minha chance de uma boa refeição de aniversário estava, portanto, em Cunha, onde fomos passar o fim de semana. Chegamos tarde, tomamos apenas uma sopinha de fubá. No dia seguinte, o programa era visitar as cerâmicas da cidade, quem sabe ver alguma abertura de forno. Eu que já imaginava pão quentinho fui avisado pela minha irmã artista que forno, em Cunha, significa belas cerâmicas. E obviamente, à noite, um bom jantar.

O almoço foi ótimo, com direito a bife acebolado e tubaína, no Restaurante da Dona Francisca, uma portinha ao lado do Mercado Municipal. As cerâmicas são lindas. Mas o jantar me deixou decepcionado, e eu só tinha o domingo para ainda tentar encerrar uma semana com o prato dos meus sonhos.

Pergunta dali, pergunta daqui, e finalmente encontrei uma indicação que parecia boa: imagine uma estrada em meio à serra –  estreita, de curvas vagarosas, acompanhada  por plátanos e araucárias. Uma pequena ponte de madeira, uma vila com casas de pedra em semicírculo, uma fonte no meio. Um jardim de hortênsias azuis e ao fundo um galpão de tijolos avermelhados. De dentro do galpão, pela porta envidraçada, você vê as colinas onde cai uma chuva tão mansa que parece névoa suspensa no ar.  E o cheiro picado de grama e chuva e frio é substituído pelo aroma penetrante e adocicado de alho, noz moscada e creme de leite. Imagine, por fim, que toca uma trilha sonora baixinha, romântica e perfeita. E que você está acompanhado de um grande amor. Ou de dois.

O chef do Villa Favorita é Ernani Tedeschi, que antecipando-se à abertura de sua própria pousada, inaugurou um restaurante. Ex-engenheiro, autodidata na cozinha, prepara massa fresca, sovada à mão, com ovos caipiras e receitas de família. A Ângela comeu um ravióli de bacalhau. Eu comi um ravióli de funghi que me chamou a atenção pelo equilíbrio de tempero. Funghi raramente é minha escolha em restaurantes, porque é comum o gosto forte sobrepor-se a todo o restante do prato. O ravióli de Ernani, além da massa fresca e deliciosa, tinha um sabor equilibrado, com um recheio de carne moída bem fininha, quase cremosa na sua textura, de onde escapavam pequenos pedaços de cenoura e cebola fininha.

A Lívia acordou, com fome, quando a conta já estava na mesa. Acabamos ficando mais um tempo enquanto Ernani preparava um talharim a bolonhesa. Que a Lívia não comeu inteiro e me deu a chance de um repeteco.

Imagine uma estrada sinuosa, uma cidade do interior, com uma praça e uma igreja matriz. Imagine velhos sentados, pipoqueiros e o alto-falante da igreja ressoando piano pela praça. A Ângela e a Lívia sentadas no banco, comendo pipoca. Eu, pensando nos caminhos que vou trilhar nos próximos trinta e sete anos.

Imagine se dou a sorte de encontrar uma estrada sinuosa, uma ponte de madeira, uma cozinha de pedra…

***

O Villa Favorita fica no km  65,2 da Estrada Cunha-Paraty.

16 comentários sobre “Aos 37

  1. Oi, querido!!!
    Pois é, não liguei mas me lembrei de você e desejei que você encontre seus caminhos. Lógico que não sabia que eles passariam por uma estradinha assim, risos. Agora já posso configurar melhor o meu desejo! Adorei o texto! Bjs pra você, Ângela e Lívia!

  2. Pois é…deu fome. Adorei o texto e concordo com a crítica ao Gato – minha lasanha tinha um creme poderoso por fora, mas a carne do recheio estava extremamente seca. O que importa sempre é o bom papo, que salva qualquer equívoco gastronômico. Abraço…Regi

  3. Tubaina !!!!!!!!!!! Recordar é viver, em comemoração de aniversário é melhor ainda. Aposto que em Cunha com uma tubaina e um bifinho vc voltou lá em Marilia nos velhos tempos quando ainda nem passava pela sua cabeça São Paulo, correria, cerâmica etc.etc.etc.
    Parabéns. Esperamos vocês.

  4. Sandro,

    Que a poesia das suas palavras, transcedam os seus 37 anos e continuem reinando em sua vida e em seus textos.

    Beijo,

    Claudia

  5. Caro Sandro, com o perdão do trocadalho, o seu texto está literalmente saboroso.

    Especialmente interessante para mim, que mês que vem também completo 37.

    Percorrer o caminho é mais importante que chegar ao destino, diria o filósofo.

    Melhor ainda é achar um presente especial no final dele, como você achou.

    Feliz aniversário,
    Ricardo

  6. Sandro, me enquadrei na categoria “amigos desnaturados”.

    Te desejo muitas felicidades e prazeres gastronômicos nos próximos 37 anos. Acabei lendo o post na hora do almoço e fiquei morrendo de vontade de comer o bife acebolado. Bela viagem!

    Abração!!

  7. Sandro,
    Esqueço a data do aniversário de todo mundo, mas não esqueço das pessoas.
    Quando comecei a ler o texto, consegui ver a linda vila com ponte de madeira. Embora eu goste de uma correria, até me deu vontade de ir para lá.

    Ia te convidar para almoçar, mas diante do paladar sofisticado, te encontro em qualquer outro lugar para te dar seu presente🙂
    Beijos e Feliz Aniversário.

  8. Que boa surpresa Sandro! Vou virar leitora assídua do seu blog. não só porque é sobre comida, mas porque você escreve muito bem. Sempre escreveu! Que bom que os perrengues que passamos são incapazes de tirar a poesia e o sabor da nossa vida. Vamos marcar um jantar, almoço, almojanta um dia desses?
    Ah, e uma hora dessas vou seguir a sua indicação: ir pra Cunha atrás de hortênsias e massa fresca.
    beijo enorme

  9. Yara, marco qq coisa que tenha comida no meio! Me envia por email seus telefones, etc para eu entrar em contato.

  10. Bom, eu te liguei no aniversário, mas você não atendeu… pelo jeito os plátanos e araucárias bloquearam minha tentativa de desejar um feliz aniversário para você. Imagino que o destino fez com que a cada toque do celular você entrasse numa nova curva da tal estradinha da serra, faminto por não ter conseguido até então a chance de uma boa refeição de aniversário e chateado por não receber o telefonema dos amigos…

    Ah, mas a Angela e a Livia estavam lá, então no fim estava tudo bem, pois como você descreveu, nada mais gostoso do que estar acompanhado de um grande amor. Ou de dois. Beijos para ambas!

    Ravioli! Puxa, podia ter me convidado, é meu prato favorito! http://amoravioli.blogspot.com/

    Dica: os melhorer pratos do Gato que Ri são o Cappeletti in brodo e acredite se quiser, a feijoada.

  11. Sandro, Feliz aniversário! Para não repetir o programa, quando fizer 38 podes ir com a pequena e a esposa que fingia não cozinhar até São Francisco Xavier. Lá tem uma truta pra comer no topo da montanha, depois da estrada sinuosa, em frente ao lago, perto da cachoeira que sai de trás de uma pedra suspensa no ar que finge ter caido por engano.

  12. O texto é lindo! E tem tudo a ver com o local! Eu conheçoe e super indico.

    Estamos desenvolvendo o site do Villa Favorita. Você autorizaria usar parte desse texto, se surgir oportunidade? Colocaria seu crédito, claro.

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