Aos 38, 20

De repente eu me dei conta que 2010 não era só um ano que se iniciava, mas uma década inteira que terminava. E que essa década, mais a anterior, somavam vinte anos que passei em São Paulo. É claro que, quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi. Nem a dura poesia concreta da USP, nem porque as pessoas tomavam café da manhã na padaria, e não em casa, ou porque café com leite se chamava média.

Instalado em uma pensão na R. Minas Gerais, minha primeira lembrança gustativa da cidade era uma ausência: doce de abóbora. Em casa, a rotina era chegar do cursinho, almoçar e ir para o quarto, não sem antes pegar uma colherada de doce de abóbora na geladeira (“lava essa colher antes de pegar de novo senão azeda, menino!”). Aqui, eu era a própria Clarissa esperando a “pecegada” da mãe.

Na pensão, sempre havia duas opções para o almoço. Com exceção das quartas-feiras, em que os hóspedes só tinham direito a carne assada. Se quisessem comer feijoada, que atraía muitos comensais externos, tinham que pagar extra. Acho que acabei nunca experimentando esse prato por lá. A rotina mudou quando, dois anos depois, aluguei meu primeiro apartamento. Minha primeira compra, quando o salário melhorou, não foi uma moto, nem um aparelho de som. Foi um freezer.

Nesses vinte anos, casei, ganhei uma filha, fiz um mestrado, construi uma carreira. Ainda erro o tempero da comida, não acerto fazer pão direito e só agora meus bolos estão saindo fofinhos. Mas se a dissertação de mestrado contar como livro e alguns pés de manjericão contarem como árvore, dá para para arriscar dizer como o Neruda – confesso que vivi.

E quis reviver esse período juntando na minha festa de aniversário amigos de todas as épocas. Os que vieram para São Paulo comigo. Os que conheci no primeiro dia de aula. Os que conheci mês passado via internet. Os alunos. Os professores. Os chefes.

Tarde de sábado de 20 de fevereiro. Muito calor, e todos aqui para uma (obviamente!) feijoada. Não tinha como cantar parabéns sem fazer um discurso. Agradecer a todos pela caminhada. Pelo aprendizado. Aos 38 de idade, vinte de São Paulo. Cheguei aqui pesando 64 quilos. Hoje levo uns vinte a mais. Mas me falaram que um homem sem barriga é um homem sem história. E a minha, ora, são apenas uns litros de letras a mais.

9 comentários sobre “Aos 38, 20

  1. Foi demais ter participado de sua comemoração. Além das companhias de nossa turma da pós, conhecer também alguns de seus amigos. Não vejo a hora dos 25 anos!

  2. Sandro,

    Pena ter perdido, a feijoada, o discurso e principlamente a emoção…já me senti muito feliz em te sido convidada…já me penalizei muito por nao ter ido.
    Sei exatamente o que perdi!

  3. Que linda forma de ver a vida passar! Parabéns, Sandro. Pena não ter provado dessa feijuca. Mas na dos 39, estaremos lá – eu e Jujuba.
    Beijo,
    Marta Barbosa

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