O Santo Graal e os bolinhos da Rosario

A Catedral de Valência afirma ter o Santo Graal. O mais perto que cheguei do cálice, entretanto, foram os bolinhos da Rosário. Acontece que a descrição que existe no folheto distribuído na entrada da catedral simplesmente não batia com o que eu via.

Diz a descrição: à esquerda, as correntes do porto de Marselha trazidas quando Afonso, o Magnânimo, conquistou a cidade em 1453. Eu vejo paredes, abóbadas, afrescos e não vejo as correntes. À direita, a capela com o Santo Graal. Eu vejo paredes, abóbadas, afrescos, braços de santos mumificados, e nada do Santo Graal.

Rodei todas as capelas, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, até desistir. Saí frustrado, mas acabei encontrando algo muito mais interessante na Horchateria El Siglo, uma casa fundada em 1.836, que serve horchatas, fartóns e buñuelos. Vamos direto aos buñuelos da Rosario, com quem eu puxei conversa mas foi difícil arrancar a informação que eu queria: há quantos anos, precisamente, fazia bolinhos ali naquela casa?

 A pergunta tinha um sentido. Eu fiquei fascinado com a técnica precisa que ela usava para moldar os bolinhos. Há quanto tempo estava ali para conseguir em três segundos retirar massa com a mão esquerda, transferir para a direita e, utilizando os dedos médio e indicador moldar uma rosquinha e transferir para a gordura (pense no sentido da palavra prestidigitação). Não entendeu? Veja aqui o vídeo dos buñuelos sendo moldados. Não entendeu? Volte e leia o cabeçalho do meu blog, retirado do livro “Calor”, de Bill Buford. Ou o texto em que falo das mãos de minha mãe moldando esfihas, e meu pai pintando carroçarias de caminhão.

 (Ficaria ali mais tempo, mas tive que evitar o fraternal divórcio do amigo paciente que não entendeu porque tanta emoção apenas com uma senhora fritando bolinhos).

 Os buñuelos são uma tradição da cidade, principalmente durante as Fallas, uma festa que acontece em março. Fora dessa época, é preciso procurar casas especializadas. São feitos a base de farinha e fermento. Os da Rosário, fofos, dourados, sequinhos, com um pouco de açúcar por cima e perfeitos para acompanhar um café. Outros alimentos típicos de Valência são os fartóns, que não experimentei, e que se comem molhando na horchata. A horchata de chufas é uma bebida feita a partir um tubérculo seco. Triturado, misturado com água e açúcar, vira uma bebida de aspecto leitoso, sabor suave de castanha, refrescante, e ao que parece, muito nutritivo.

Rosario começa às nove da manhã, faz uma pausa para o almoço e retoma o seu posto até à noite. Trabalha tranquila, fazendo sua mágica de massa, na contramão da modernidade, espiando os turistas, achando uma discreta graça na gente que passa, que vê passar “há trinta ou quarenta anos”, como revela após a minha insistente pergunta. Diz que eu deveria entrevistar o patrón, que está logo ali atrás. E abre finalmente um sorriso quando eu digo que não me interessa o patrón que dá as ordens, mas ela que faz os bolinhos. Assim como acabo me lembrando que o Santo Graal é a busca, não o cálice.

Serviço

Horchateria del Siglo

Plaza de Santa Catalina, 11, Valencia

 Santo Graal

Descobri, mais tarde, que a capela em que fica o cálice estava fechada,  e reabriria no dia seguinte após a missa. Por isso eu não a encontrei de jeito nenhum. A taça está ali desde 1.424.

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Rosario e sua companheira

 

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Horchata fresca

 

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Café com buñuelos

 

3 comentários sobre “O Santo Graal e os bolinhos da Rosario

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