Episódio 2: Querido cliente da mesa 19

Caro cliente: você chegou na quinta-feira, por volta das 13:10 e sentou-se, sozinho, à mesa 19. Ou sozinha – da posição onde eu estava, na cozinha, não podia ver se você era homem ou mulher.

Tanto faz, ninguém gosta de almoçar desacompanhado. Ou teria sido um daqueles dias na firma? Final de ano, planejamento, metas, você precisava de uma pausa solitária antes da longa tarde de reuniões. Fugiu dos colegas, disse que tinha que “resolver umas coisas”, veio caminhando indeciso pelo bairro do Itaim e então escolheu comer algo leve e refrescante: um ceviche!

Eu, caro cliente, estava no meu terceiro dia de estágio, e o primeiro dia nem conta, porque só fiquei observando. Aprendi rapidamente a desviar-me do caminho quando alguém grita “Queima! Queima!”. Na cozinha, isso é sinal de que alguém com uma panela quente ou uma faca está vindo em sua direção. Bem parecido com aqueles momentos em que você tem o seu dia todo planejado e chega uma demanda sem pé nem cabeça do vice-presidente. Talvez você possa adotar isso no escritório, usar no campo “Assunto” do email ou sair da sala do chefe falando bem alto: “Queima! Queima!”. Todos entenderão seu momento, caro cliente, e se desviarão de você.

A outra coisa que aprendi rápido, cliente, é que o dia começa bem cedo e com muito trabalho para que você possar fazer seu pedido e mergulhar despreocupado no seu smartphone. Às sete da manhã já estamos abrindo peixes, limpando camarão e cortando cebolas. Mas até você chegar e pedir um ceviche clássico, eu só tinha transportado gelo e picado salsinha. E bem naquele dia, um cozinheiro tinha faltado.

O chef virou para mim e perguntou: “Você já sabe fazer um ceviche clássico?” e eu não tinha como dizer não. Ceviche clássico é composto de peixe em cubos, sal, limão, pimenta, coentro, salsão e leche de tigre. Você pesa o peixe, mistura tudo na ordem certa, coloca no prato e entrega para o garçom. Naquele instante em que ouvi “Você já saber fazer um ceviche clássico?”, cliente, parece que me cresceram um seis braços e eu me tornei um polvo. Os braços 2, 3 e 5, queriam pegar a tigela, o braço 4 foi mais rápido e pegou o peixe antes que tigela tivesse chegado à balança, enquanto o braço 1 ficou sozinho na bancada com uma colher de pimenta. O braço 6 enfiou no bolso e gritou, em pânico: QUEIMA! QUEIMA!

Com um certo esforço consegui coordenar os seis braços, servi seu ceviche orgulhoso e corri até a pia para ver se o prato voltava vazio. Você demorou para devolver o prato, maldito smartphone! Mas obrigado, cliente da mesa 19. Você me fez ganhar o dia, o ano: foi responsável por eu soltar pela primeira vez um prato em uma cozinha profissional. Até estufei o peito e me senti bacana no meu uniforme.

E agora, uma palavra com os clientes da mesa 26: vocês chegaram logo após o cliente da mesa 19, pediram quatro ceviches diferentes entre si ainda e MUDARAM o ingrediente de um deles. Isso não foi legal, mesa 26.

7 comentários sobre “Episódio 2: Querido cliente da mesa 19

  1. se for aonde eu estou pensando, almocei sozinho aí outro dia (antes de sua “gestão”…). pedi batatas bravas, polvo e um vinho branco. saí feliz e embriagado – mas eu gosto de almoçar sozinho as vezes…

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